Texto da alocução que o Santo Padre Bento XVI deveria ter pronunciado na sua visita à Universidade La Sapienza de Roma, prevista para 17 de Janeiro 2008, e depois anulada a 15 do mesmo mês.
Magnífico Reitor, Autoridades políticas e civis, Ilustres docentes e pessoal técnico e administrativo, Caros jovens estudantes!
É para mim motivo de profunda alegria encontrar a comunidade da Universidade La Sapienza de Roma por ocasião da inauguração do ano académico. Há já séculos que esta Universidade marca o caminho e a vida da cidade de Roma, fazendo frutificar as melhores energias intelectuais em todos os campos do saber. Quer no tempo em que, após a sua fundação por iniciativa do Papa Bonifácio VIII, a instituição estava na directa dependência da autoridade eclesiástica, quer, depois, quando o Studium Urbis se desenvolveu como instituição do Estado italiano, a vossa comunidade académica conservou um grande nível científico e cultural que a coloca entre as mais prestigiadas universidades do mundo. Desde sempre a Igreja de Roma olha com simpatia e admiração este centro universitário, reconhecendo-lhe o empenhamento, por vezes árduo e laborioso, na investigação e na formação das novas gerações. Nestes últimos anos não têm faltado momentos significativos de colaboração e diálogo. Quero recordar, em particular, o Encontro mundial de Reitores por ocasião do Jubileu da Universidade, que viu a vossa comunidade encarregar-se não só do acolhimento e da organização, mas, sobretudo, da profética e complexa proposta de elaboração de um “novo humanismo para o terceiro milénio”. Nestas circunstâncias, é-me caro exprimir a minha gratidão pelo convite que me foi dirigido para vir à vossa universidade proferir uma conferência. Nesta perspectiva pus-me, antes de mais, uma questão: O que pode e deve dizer um Papa numa ocasião como esta? Na minha lição em Ratisbona falei, sim, como Papa, mas sobretudo como antigo professor daquela minha universidade, procurando ligar recordações e actualidade. Na Universidade Sapienza, antiga universidade de Roma, porém, fui convidado justamente como Bispo de Roma e, por isso, é como tal que devo falar. É certo que a Sapienza foi, num dado tempo, a universidade do Papa, mas actualmente é uma universidade laica com aquela autonomia que, a partir do seu próprio conceito fundador, fez sempre parte da natureza da universidade, a qual deve estar exclusivamente vinculada à autoridade da verdade. Na sua liberdade perante a autoridade política e eclesiástica, a universidade encontra a sua função particular, também para a sociedade moderna que não pode prescindir de uma tal instituição. Regresso à minha questão inicial: Que pode e deve dizer o Papa no encontro com a universidade da sua cidade? Reflectindo nesta interrogação pareceu-me que nela se incluem outras duas, cuja clarificação conduzirá por si mesma a uma resposta. Impõe-se, de facto, perguntar: Qual é a natureza e missão do papado? E ainda: Qual é a natureza e missão da universidade? Não gostaria neste lugar de deter-me em longas dissertações acerca da natureza do papado. Basta uma breve alusão. O Papa é, antes de mais, Bispo de Roma e, enquanto tal e em virtude da sucessão do Apóstolo Pedro, tem uma responsabilidade episcopal relativamente a toda a Igreja católica. A palavra “bispo”, epískopos, que no seu sentido imediato significa “vigilante”, já no Novo Testamento foi fundida com o conceito bíblico de pastor: é aquele que, de um ponto de observação elevado, tem a visão de conjunto, cuida do justo caminho e da coesão do todo. Neste sentido, esta designação da tarefa orienta o olhar, antes de mais, para o interior da comunidade crente. O Bispo – o Pastor – é o homem que cuida desta comunidade; aquele que a conserva unida, mantendo-a no caminho para Deus, o qual é indicado, segundo a fé cristã, por Cristo – e não apenas indicado: Ele próprio é para nós o caminho. Mas esta comunidade da qual o Bispo cuida – quer ela seja grande ou pequena – vive no mundo; a sua condição, o seu caminho, o seu exemplo e a sua palavra têm inevitavelmente influência sobre todo o resto da comunidade humana no seu conjunto. Quanto maior ela for, tanto mais a sua boa condição ou a sua eventual degradação se repercutirá no conjunto da humanidade. Vemos hoje, com muita clareza, como as condições das religiões e como a situação da Igreja – as suas crises e os seus renovamentos – actuam sobre toda a humanidade. Deste modo, o Papa, precisamente enquanto Pastor da sua comunidade, foi-se tornando cada vez mais também uma voz da razão ética da humanidade. Aqui, porém, surge de imediato a objecção segundo a qual o Papa, de facto, não falaria verdadeiramente com base na razão ética, mas derivaria da fé os seus juízos que, por isso, não poderiam pretender possuir qualquer validade para aqueles que não partilhem essa mesma fé. Teremos, ainda, de voltar a este argumento, pois coloca-se aqui a questão fundamental: O que é a razão? Como pode uma afirmação – sobretudo uma norma moral – demonstrar-se como “racional”? Neste ponto gostaria, por agora apenas e de forma breve, relevar que John Rawls, mesmo negando a doutrinas religiosas abrangentes o carácter de razão “pública”, via contudo na sua razão “não pública” mesmo assim uma razão, que não poderia, em nome de uma racionalidade secularizadamente endurecida, ser simplesmente negada àqueles que a defendem. Ele vê um critério desta razão no facto, entre outros, de que tais doutrinas derivam de uma tradição responsável e motivada na qual, ao longo dos tempos, se desenvolveram argumentações suficientemente válidas em defesa da respectiva doutrina. Nesta afirmação parece-me importante o reconhecimento de que a experiência e a comprovação ao longo das gerações – o fundo histórico da sabedoria humana – constituem um sinal da sua racionalidade e do seu perdurável significado. Frente a uma razão a-histórica, que procure autoconstruir-se apenas numa racionalidade a-histórica, a sabedoria da humanidade como tal – a sabedoria das grandes tradições religiosas – deve ser valorizada como realidade que não se pode impunemente atirar para o refugo da história das ideias. Voltemos à questão do início. O Papa fala como representante de uma comunidade crente na qual, durante os séculos da sua existência, amadureceu uma sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que conserva em si um tesouro de conhecimentos e experiências éticas, que é importante para toda a humanidade: neste sentido fala como representante de uma razão ética. Mas, neste momento, devemos perguntar: E o que é a universidade? Qual a sua tarefa? Trata-se de uma questão gigantesca à qual, uma vez mais, apenas posso tentar responder, em estilo quase telegráfico, com algumas observações. Julgo poder dizer que a verdadeira, a íntima origem da universidade reside na ânsia de conhecimento que é própria do homem. Ele quer saber o que é, tudo aquilo que o circunda. Quer a verdade. Neste sentido pode ver-se a interrogação de Sócrates como aquele impulso do qual nasceu a universidade ocidental. Penso, p. ex. – para apenas mencionar um texto –, na disputa com Êutifron que, diante de Sócrates, defende a religião mítica e a sua devoção. A isso Sócrates contrapõe a questão: “Crês que entre os deuses existe realmente uma guerra mútua e terríveis inimizades e combates… Deveremos, Êutifron, efectivamente dizer que tudo isto é verdadeiro?” (6b-c) Nesta pergunta aparentemente pouco devota – mas que em Sócrates derivava da religiosidade mais profunda e mais pura, da procura do Deus verdadeiramente divino – os cristãos dos primeiros séculos reconheceram-se a si mesmos e ao seu caminho. Acolheram a sua fé não de modo positivista, ou como expediente para desejos não satisfeitos; compreenderam-na como um sair da névoa da religião mitológica para dar lugar à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão como Amor. Por isso, o interrogar-se da razão sobre o Deus maior, como também sobre o que o ser humano realmente é e deve ser, constituía para eles não uma forma problemática de falta de religiosidade, mas fazia antes parte da essência do seu modo de serem religiosos. Não tinham necessidade, portanto, de anular ou pôr de lado a interrogação socrática, mas podiam, ou melhor, deviam acolhê-la, reconhecendo como parte da própria identidade a procura laboriosa da razão por alcançar o conhecimento da verdade total. Assim, a universidade podia, tinha de nascer no âmbito da fé cristã, no mundo cristão. É preciso dar mais um passo. O homem quer conhecer – ele quer verdade. Verdade é, primeiramente, algo que pertence ao ver, ao compreender, à theoria, como lhe chama a tradição grega. Mas a verdade nunca é somente teórica. Agostinho, ao colocar em correlação as Bem-aventuranças do Sermão da Montanha e os dons do Espírito mencionados em Isaías 11, afirmou uma reciprocidade entre scientia e tristitia: o mero saber, disse, torna-nos tristes. E, de facto, quem vê e apreende apenas tudo o que acontece no mundo, acaba por tornar-se triste. Mas a verdade significa mais do que o saber: o conhecimento da verdade tem como escopo o conhecimento do bem. É este também o sentido da interrogação socrática: Qual é o bem que nos torna verdadeiros? A verdade torna-nos bons, e a bondade é verdadeira: é este o optimismo que vive na fé cristã, pois foi-lhe concedida a visão do Logos, da Razão criadora que, na incarnação de Deus, se revelou simultaneamente como o Bem, como a própria Bondade. Na teologia medieval houve um profundo debate acerca da relação entre teoria e praxis, acerca da justa relação entre conhecer e agir – uma discussão que aqui não podemos desenvolver. Com efeito, a universidade medieval com as suas quatro Faculdades apresenta esta correlação. Comecemos com a Faculdade que, segundo a compreensão da época, era a quarta, a de medicina. Embora fosse considerada mais como “arte” e não como ciência, a sua inserção no cosmo da universitas significava claramente, contudo, que era colocada no âmbito da racionalidade, que a arte do curar estava sob a direcção da razão e havia sido subtraída ao campo da magia. Curar é uma tarefa que requer sempre mais do que a simples razão, mas justamente por isso precisa da ligação entre saber e poder, precisa de pertencer à esfera da ratio. Na Faculdade de direito surge, inevitavelmente, a questão da relação entre praxis e teoria, entre conhecimento e agir. Trata-se de dar a justa forma à liberdade humana que é sempre liberdade na convivência: o direito é o pressuposto da liberdade, não o seu antagonista. Mas aqui surge, de imediato, a pergunta: Donde derivam os critérios de justiça que tornam possível uma liberdade vivida em conjunto e que está ao serviço do ser bom do homem? Neste ponto impõe-se um salto para o presente: é a questão sobre como pode ser encontrada uma normativa jurídica que constitua um ordenamento da liberdade, da dignidade humana e dos direitos humanos. É esta a questão que nos ocupa hoje nos processos democráticos de formação da opinião e que, ao mesmo tempo, nos aflige enquanto questão para o futuro da humanidade. Jürgen Habermas exprime, em minha opinião, um vasto consenso do pensamento actual, quando diz que a legitimidade de uma Constituição, qual pressuposto da legalidade, derivaria de duas fontes: da participação política igualitária de todos os cidadãos e da forma racional de resolver os contrastes políticos. Relativamente a esta “forma racional”, Habermas nota que ela não pode ser somente uma luta por maiorias aritméticas, antes se deve caracterizar como um “processo de argumentação sensível à verdade” (wahrheitssensibles Argumentationsverfahren). Está bem dito, mas é muito difícil de transformar em prática politica. Os representantes do “processo de argumentação” público são prevalentemente os partidos enquanto responsáveis pela formação da vontade política. Mas no plano dos factos, eles têm em mira sobretudo o conseguirem maiorias e, com isso, cuidam inevitavelmente dos interesses que prometem satisfazer; tais interesses, porém, são frequentemente particulares, não estando na realidade ao serviço do todo. A sensibilidade à verdade é constantemente subjugada à sensibilidade pelos interesses. Penso que é significativo o facto de Habermas falar da sensibilidade pela verdade como de um elemento necessário ao processo de argumentação politica, reinserindo assim o conceito de verdade no debate filosófico e político. Mas agora torna-se inevitável a pergunta de Pilatos: O que é a verdade? E como reconhecê-la? Se para isto se remete para a “razão pública”, como faz Rawls, então segue-se necessariamente a questão: O que é racional? Como é que uma razão se mostra autêntica razão? Em todo o caso, torna-se evidente que, na procura do direito da liberdade, na procura da verdade da justa convivência, devem ser ouvidas instâncias que sejam diversas dos partidos e grupos de interesse, sem com isso se pretender minimamente contestar a importância destes. Regressamos, deste modo, à estrutura da universidade medieval. Ao lado da ciência jurídica, havia as Faculdades de filosofia e teologia às quais estava confiada a investigação sobre o que é o ser homem na sua totalidade e, com isso, a tarefa de manter desperta a sensibilidade à verdade. Poder-se-ia dizer até que é este o sentido permanente e verdadeiro de ambas as Faculdades: serem guardiãs da sensibilidade pela verdade, não permitindo que o homem seja desviado da procura da verdade. Mas como podem corresponder a esta missão? Esta é uma questão pela qual é preciso sempre de novo desenvolver esforços e que nunca está definitivamente equacionada e resolvida. Assim, também neste ponto, não posso oferecer propriamente uma resposta, mas sim um convite a que se permaneceça a caminho nesta questão – a caminho juntamente com os grandes que, ao longo de toda a história, lutaram e procuraram, com as suas respostas mas também com a sua inquietação pela verdade, a qual remete continuamente para lá de toda a resposta particular. Teologia e filosofia formam, aqui, um peculiar par de gémeos no qual nenhuma das duas pode ser separada totalmente da outra tendo, no entanto, cada uma de conservar a sua tarefa própria e a sua identidade particular. É mérito histórico de S. Tomás de Aquino – perante a diferente resposta dos Padres da Igreja devido ao seu contexto histórico – ter mostrado a autonomia da filosofia e, desse modo, o direito e a responsabilidade próprias da razão que se interroga segundo as suas forças. Diferenciando-se das filosofias neoplatónicas, nas quais religião e filosofia estavam inseparavelmente mescladas, os Padres haviam apresentado a fé cristã como a verdadeira filosofia, sublinhando igualmente que esta fé correspondia às exigências da razão na procura da verdade; que a fé é o “sim” à verdade, em face das religiões míticas, tornadas em mero costume. Mas, agora, na altura do nascimento da universidade, já não existiam no Ocidente aquelas religiões mas somente o cristianismo, e assim era preciso sublinhar de modo novo a responsabilidade própria da razão, que não é absorvida pela fé. S. Tomás agiu num momento privilegiado. Pela primeira vez os escritos filosóficos de Aristóteles estavam acessíveis na sua integralidade e estavam presentes as filosofias hebraica e árabe, enquanto específicas apropriações e continuações da filosofia grega. Deste modo, o cristianismo, num diálogo novo com a razão de outros que ia encontrando, devia esforçar-se pela sua própria racionalidade. A Faculdade de filosofia que, chamada “Faculdade dos artistas”, até então tinha sido apenas uma propedêutica à teologia, torna-se agora uma Faculdade verdadeira e própria, um parceiro autónomo da teologia, e da fé por esta reflectida. Não podemos, aqui, deter-nos no excitante debate que daí resultou. Direi que a ideia de S. Tomás acerca da relação entre filosofia e teologia poderia ser expressa na fórmula encontrada pelo Concílio de Calcedónia para a cristologia: filosofia e teologia devem relacionar-se entre si “sem confusão e sem separação”. “Sem confusão” quer dizer que cada uma deve conservar a própria identidade. A filosofia deve permanecer verdadeiramente uma pesquisa da razão na própria liberdade e na própria responsabilidade; deve ver os seus limites e, justamente assim, dar-se conta da sua grandeza e amplidão. A teologia deve permanecer na consciência de que explora um tesouro de conhecimento que ela mesma não inventou, que sempre a supera e que, não sendo totalmente exaurível mediante a reflexão, exactamente por isso guia sempre de novo o pensamento. Juntamente com o “sem confusão” é válido também o “sem separação”: a filosofia não recomeça sempre do ponto zero do sujeito pensante isoladamente, mas insere-se no grande diálogo da sabedoria histórica que ela, de modo crítico e disponível, acolhe e desenvolve incessantemente; mas também não deve fechar-se perante aquilo que as religiões e, em particular, a fé cristã, receberam e deram à humanidade como indicação de caminho. Houve coisas ditas por teólogos no decurso da história ou, ainda, praticadas pela autoridade eclesial, que a história demonstrou serem falsas (falsifiziert) e hoje nos envergonham. Mas, ao mesmo tempo, é também certo que a história dos santos, a história de um sentido de humanidade originado na fé cristã, demonstra a verdade (verifiziert) desta fé no seu núcleo essencial, tornando-a, com isso, também uma instância para a razão pública. Sem dúvida, muitas das afirmações da teologia e da fé podem tão-só ser feitas no interior da fé e, portanto, não podem apresentar-se como exigência para aqueles a quem esta fé se mantém inacessível. Contudo é verdade, ao mesmo tempo, que a mensagem da fé cristã nunca é apenas uma “comprehensive religious doctrine” no sentido de Rawls, mas uma força purificadora para a própria razão, que a ajuda a ser mais ela mesma. A mensagem cristã, segundo a sua origem, deverá ser sempre um encorajamento à verdade e, assim, uma força contra a pressão do poder e dos interesses. Pois bem, até agora apenas falei da universidade medieval, procurando no entanto que transpareça a natureza permanente da universidade e da sua missão. Nos tempos modernos abriram-se novas dimensões do saber, que na universidade são valorizadas sobretudo em dois grandes âmbitos: nas ciências da natureza, que se desenvolveram na base da conexão entre a experimentação e a pressuposta racionalidade da matéria; e nas ciências históricas e humanísticas, nas quais o homem, perscrutando o espelho da sua história e clarificando as dimensões da sua natureza, procura entender-se melhor a si próprio. Por este desenvolvimento abriu-se à humanidade não só uma imensa medida de saber e poder, mas aumentou também o conhecimento e o reconhecimento dos direitos e da dignidade do homem, e por isto apenas podemos estar gratos. O caminho do homem, porém, nunca pode dizer-se completo, e o perigo de queda na desumanidade nunca está afastado; em que medida isto acontece vemo-lo bem no panorama da história actual! O perigo do mundo ocidental – para falar deste somente – é hoje o homem capitular, precisamente ao considerar a grandeza do seu saber e poder, perante a questão da verdade. E isso significa que a razão, em última análise, se curva então diante da pressão dos interesses e da atracção do utilitarismo, vendo-se obrigada a reconhecê-lo como seu critério último. Dito do ponto de vista da estrutura da universidade: existe o perigo de que a filosofia, não se sentindo já capaz da sua verdadeira missão, se degrade em positivismo; que a teologia, com a sua mensagem virada para a razão, seja confinada à esfera privada de um grupo maior ou menor. Se a razão, solícita por uma sua pretensa pureza, se torna surda à grande mensagem que lhe vem da fé cristã e da sua sabedoria, ela seca como uma árvore cujas raízes já não chegam à água que lhe dá vida. Perde a coragem pela verdade e, desse modo, não se torna maior, mas sim mais pequena. Aplicado isto à nossa cultura europeia, significa: se esta pretende apenas autoconstruir-se segundo o círculo das próprias argumentações e aquilo que no momento a convence e – preocupada com a sua laicidade – se corta das raízes das quais vive, então não se torna mais racional e mais pura, mas antes se arruína. Com isto regresso ao ponto de partida. Que tem a fazer ou a dizer o Papa na universidade? Não deve, seguramente, procurar impor de modo autoritário a fé, que apenas pode ser dada em liberdade. Para além do seu ministério de Pastor na Igreja e seguindo a natureza intrínseca deste mesmo ministério pastoral, é sua missão manter desperta a sensibilidade à verdade; convidar a razão, sempre de novo, a colocar-se à procura do verdadeiro, do bem, de Deus; e, nesta via, solicitá-la a distinguir as luzes úteis, ao longo da história da fé cristã, e a perceber, assim, Jesus Cristo como a Luz que ilumina a história e ajuda a encontrar o caminho para o futuro. |