M. LUÍSA RIBEIRO FERREIRA - M. LUÍSA FALCÃO - JOSÉ PATRÍCIO
A inquietude é uma constante na vida do cristão e traduz-se no desejo de dar forma a um apelo de transcendência que habita no coração de todo o homem. Não se trata de inquietação, nem de mal-estar, nem de angústia, "paixões tristes" como lhes chama Espinosa pois não contribuem para o crescimento e realização do ser. A inquietude é um dinamismo positivo que leva a que nos interroguemos sobre as coisas, sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre Deus. Movidos por ela procuramos um lugar no mundo, traçamos percursos de vida, confrontamo-nos com o divino. Encontramo-la como atitude típica da filosofia, presente num dos seus pais fundadores - Aristóteles. É sobre o tema do espanto que se debruça o primeiro artigo deste número, onde M. José Figueiredo discute os pressupostos que se colocam acerca do mundo e do ser humano, na ausência dos quais não haveria, nem interesse, nem possibilidade de progredir no conhecimento. É o espanto como inquietude primordial que conduz o investigador-filósofo na sua busca da verdade.
Ainda em sede filosófica mas recorrendo a uma fundamentação teológica, Henrique de Noronha Galvão comenta o texto de abertura das Confissões de Santo. Agostinho, com realce para a bela e conhecida alusão ao "coração inquieto" que busca Deus. Assim se exprime a condição de quem não alcançou ainda o seu lugar próprio à imagem do fogo - fogo do "desejo de Deus" - que não encontra repouso na terra, como a pedra sujeita à gravidade, mas no céu onde ardem as estrelas.
A inquietudo agostiniana de ver a Deus e, mais especificamente, a doutrina de S. Tomás do desejo natural de Deus foram objecto de estu-do para Henri de Lubac. Do seu percurso nos dá conta o texto de Vítor Franco Gomes, sublinhando a distância que o teólogo francês soube guardar perante as interpretações diversas das escolas tomistas e a leitura pessoal que fez do tema. Encontra-se especialmente em causa a teoria da "natureza pura" consolidada ao longo dos séculos, mas que tende a esquecer a abertura ilimitada do homem à transcendência, eloquente sinal do paradoxo humano.
O "mal-estar na civilização" é analisado na perspectiva bíblica por Philippe Lefebvre que nos explica como uma interpretação demasiado humana não logrará discernir a verdade da inquietação vivida colectivamente, defendendo que só a Palavra de Deus é decisiva na reflexão sobre o mal-estar na sociedade, pois não aponta para um sistema do mundo doente e violento, mas primacialmente para as pessoas. Aqueles que a Bíblia designa como "justos", são os que captam e revelam, por contraste, a inquietação latente no mundo.
Margarida Amaral faz-nos reflectir, a partir de Hannah Arendt, sobre o deserto que alastra na nossa era, entendendo-o como o oposto da cultura. Vivemos num tempo que elogia o desacompanhamento inerente ao consumo desenfreado e o estéril instante que nos orienta para a dimensão vital de um entretenimento alargado com o qual nenhum mundo cultural pode conviver. A inquietude perante o alastramento do deserto é, portanto, legítima e só uma reflexão acerca dos seus contornos nos pode tornar capazes de contrariar os caminhos áridos que a ela nos conduzem. Pensar acerca da importância de uma educação fundada na cultura apresenta-se pois como um dos meios de contrariar tais caminhos.
Isabel Pincemin, médica do Programa de Cuidados Paliativos em Buenos Aires, em "A genética. Assombro e Inquietude", informa-nos sobre as diversas etapas do Projecto do Genoma Humano, bem como as possibilidades de detecção precoce e prevenção de doenças genéticas, dos potenciais problemas éticos suscitados pela utilização de dados, dos avanços e interrogações da engenharia genética, entre outros assuntos. É um texto mais extenso do que é norma na COMMUNIO, mas abrimos uma excepção devido ao seu interesse.
Em "A Inquietude na obra de Paula Rego", Emília Nadal fala-nos da procura de sentidos e integração pessoal que nascem do confronto da artista com o inexplicável e o desconhecido. Paula Rego é uma "contadora de histórias" - histórias que perduram na sua memória e que ela narra numa linguagem plástica que dá voz a universos oníricos atravessados por grande inquietação. A estética desta surpreendente artista portuguesa nasce da sua urgência de verdade, e a estranheza de muitos dos seus temas e imagens revela um mistério de iniquidade atrás da qual se oculta a própria morte. É uma proposta estética que chega ao ponto de inquietar os admiradores da sua obra, tantas vezes divididos entre a atracção por ela e a sua incapacidade de com ela conviverem.
A secção Depoimentos inclui um texto de Manuel Vilas-Boas sobre um livro de Madre Teresa de Calcutá, desmistificando o chamado "escândalo dos não crentes" que tal obra provocou; e Rita Patrício debruça-se sobre O Livro do Desassossego do semi-heterónimo de Pessoa, Bernardo Soares, sublinhando o papel que a escrita desempenha na nostalgia de criar um impossível mundo "sossegado".
A secção Perspectivas inclui um texto representativo de uma preocupação actual. Hansjürgen Verweyen aborda o fenómeno da "religião civil", típico dos Estados Unidos, no contexto do choque de potências que recorrem à instrumentalização da religião para mascarar os seus empreendimentos de violência e guerra. Esta "religião" natural, ou seja, da percentagem mínima de crença em Deus que em princípio pode esperar-se de todos os homens, não se submete a uma crítica sistemática em termos de teologia fundamental, nem o seu conteúdo está dependente de uma instância decisória superior, mas apenas do talento retórico de pregadores e altas personalidades, com forte apoio nos media. Daí o risco de instrumentalização política.
O número inclui ainda um índice dos artigos publicados na COMMUNIO ao longo de 2007, de grande utilidade para os leitores.
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