Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Condições de assinatura para 2013 e 2014
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXVI • 2009-03-31 • nº 1 •
Entrada de Jesus em Jerusalém
 
palavra-chave
 
   

artigos
Entrada de Cristo em Jerusalém. Luzes do Antigo Testamento • pág 007
Lefebvre, Philippe
O novo Hossana no novo Templo • pág 023
Granados, José
Festa e iconografia da entrada de Jesus em Jerusalém • pág 037
Passarelli, Gaetano
Iconografia da entrada de Jesus em Jerusalém na arte ocidental • pág 049
Crippa, Maria Antonietta
Jerusalém. Memória e esperança • pág 055
Lourenço, João
Messianismo, profetismo e construção da ideia de nacionalidade na cultura portuguesa • pág 069
Franco, José Eduardo
Ser cristão hoje em Jerusalém • pág 081
Faltas, Ibrahim
Jerusalém. Unidade e diversidade da condição humana. Notas para uma audição • pág 087
Teixeira, Alfredo
Guia bíblico e cultural da Terra Santa • pág 091
Lourenço, João
São Paulo e as mulheres • pág 097
Neves, Joaquim Carreira das
Ética ecológica com base numa ecologia de comunhão • pág 117
Panão, Miguel Oliveira


apresentação

H. NORONHA GALVÃO - JOÃO MARQUES ELEUTÉRIO - PETER STILWELL

O modo como Jesus encena a sua última entrada em Jerusalém destina-se a revelar o verdadeiro sentido da missão messiânica que é a razão de ser da sua vida. Na origem desse gesto está uma decisão pessoal, inteiramente consciente das suas consequências: "Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém." (Lc 9,51) Como entende Jesus essa sua missão? Toda a história de Israel, como povo escolhido por Deus, está marcada pela esperança. É como fruto da promessa feita a Abraão de uma numerosa descendência que surge esse povo (Gn 15,5s;18,17s). Mas, se lançarmos o olhar para os tempos anteriores, verificamos que já nos primórdios da humanidade os autores bíblicos reconhecem os primeiros anúncios do desígnio de Deus que quer conduzir todos os homens à salvação e à plenitude. A essa luz se deve entender a promessa feita aos primeiros pais, após o pecado (Gn 3,15). Com a aliança estabelecida com Noé, o próprio cosmos é abrangido pelo favor divino (Gn 9,1-17). A promessa concretiza-se ao longo da história, sobretudo nas etapas que dão forma ao povo libertado da escravidão do Egipto, com o qual Deus estabelece a sua aliança depois de lhe haver revelado o seu Nome (Ex 3,14; 19-24). Um profeta "como Moisés" surge já no horizonte do futuro (Ex 18,15-19). Com a promessa do profeta Natan ao rei David, a expectativa concentra-se no messias, o ungido no qual a fidelidade de Deus se há-de definitivamente comprovar (2Sm 7,11b.16). Contudo, após a realeza entrar em decadência, outras figuras hão-de ser anunciadas através das quais Deus concederá a sua salvação, como a do justo sofredor (Sl 69) e a do servo de Deus (Is 42,1-4; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12). Admirável na pessoa de Jesus é verificarmos como nele convergem tantas figuras veterotestamentárias aparentemente contraditórias entre si, como a do rei vitorioso à maneira de David e a do servo sofredor. O contraste entre tais figuras há-de reflectir-se nas diversas formas de expectativa messiânica que se sucedem ao longo da história de Israel ou que coexistem na sociedade em que Jesus vive. Nos textos do evangelho da infância, é lícito ver reflectida a consciência desse círculo de judeus piedosos que acolhem o recém-nascido na humildade de quem reconhece o desígnio de Deus anunciado pelos profetas. Maria, José, Zacarias, Isabel, Simeão, Ana, todos testemunham à sua maneira a obediência ao desígnio de Deus, sem a vontade de concorrer com ela mediante um qualquer projecto humano. Mas nem todos os grupos sociais do tempo se comportam de igual modo. Através deles, diversas formas de expectativa messiânica se confrontam de maneira mais ou menos pública, mais ou menos agressiva. Para os zelotas, é necessário tomar nas mãos o projecto de libertação frente ao domínio dos Romanos, usando da violência se necessário for, a exemplo dos que já antes haviam lutado contra a sujeição de Israel a outros ocupantes da Palestina. A herança dos Macabeus que tinham lutado contra os Amorreus está viva e activa no tempo de Jesus. Mas para os fariseus a atitude deverá ser outra, pois era do próprio de Deus que esperavam a intervenção que lhes traria a salvação, embora o "dia de Yahveh" pudesse e devesse ser apressado pelo rigor das práticas religiosas. E havia ainda os publicanos que se prestavam a colaborar com o poder ocupante fazendo o serviço de cobrança dos impostos. Na linha profética, porém, a missão do enviado de Deus será trazer a paz messiânica anunciada por Isaías 11,6-8: "Então o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente." Por isso, Jesus nunca se pronunciou a favor de qualquer grupo sócio-político do seu tempo. Pelo contrário, convoca-os a todos para que superem divergências e rivalidades no projecto que já não será o de algum grupo humano mas do próprio Deus. No círculo mais chegado de discípulos que ele escolhe, há pelo menos um representante dos zelotas, Simão (Mt 10,4; Lc 6,15; Act 1,13), mas também um representante dos rivais publicanos, Mateus (Mt 9,9; 10,3). O exercício do reinado que Jesus inaugura não será à maneira dos dominadores deste mundo mas à maneira de quem serve (Mc 10,42-45). Uma tal figura de Messias fora já profetizada por Zacarias: "Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e vitorioso; vem, humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; o arco de guerra será quebrado. Proclamará a paz para todas as nações. O seu império irá de um mar ao outro e do rio às extremidades da terra." (9,9s) Esta a profecia que Jesus claramente evoca ao entrar em Jerusalém para sofrer e morrer, como profeta rejeitado, como justo sofredor, como servo de Deus; e, no entanto, será um reino universal aquele que, deste modo, irá estabelecer. Só por si, a entrada na cidade santa de Jerusalém tem, para qualquer judeu, um significado simbólico em que ressoam referências várias à longa história de Israel. Para Philippe Lefebvre, no primeiro artigo deste número da COMMUNIO, são as "luzes do Antigo Testamento" que nos permitem entender todo o alcance e riqueza deste gesto de Jesus. A sua entrada em Jerusalém, no entanto, apenas se entenderá perfeitamente se tivermos em conta a centralidade e sacralidade do Templo, bem presente no relato evangélico. José Granados completa a análise feita no artigo anterior com a referência a estes aspectos, patentes no episódio da expulsão dos vendedores no Templo, e igualmente expressos pela aclamação do Hossana com que Jesus é recebido. Há uma perspectiva escatológica que aponta para o Reino definitivo de Deus no meio dos homens, em que o Templo será o próprio corpo do Senhor ressuscitado, como o evangelho de João (2,13-22) esclarece. Instrumentos fundamentais para a interpretação que, ao longo da história da Igreja, nos faz penetrar o sentido último deste mistério da vida de Jesus, são a liturgia e a arte sacra. Gaetano Passareli descreve como a festa que celebra a entrada de Jesus em Jerusalém teve origem no Oriente, também sob a forma de "festa das crianças", e recorda-nos o testemunho dos ícones. A presença desta temática na arte ocidental é estudada por M. Antonietta Crippa. Que importância pode então ter para nós a cidade de Jerusalém, marcada pelos acontecimentos fundantes do cristianismo? João Lourenço expõe a dupla dimensão do seu significado, como "memória e esperança". Ao concreto da história extremamente agitada e, por vezes, dramática de Jerusalém, junta-se "a cidade sonhada", a sua significação transcendente cantada pelos salmos e recuperada pela interpretação cristã do Apocalipse. O mesmo autor apresenta-nos o Guia bíblico e cultural da Terra Santa que ele próprio elaborou. Ibrahim Faltas, único pároco cristão latino na Jerusalém actual, deixa um impressionante testemunho do que significa viver como cristão num meio com tão profundas divergências religiosas, procurando formas de convivência pacífica. Ainda acerca da cidade das três religiões abraâmicas, Alfredo Teixeira descreve e comenta um projecto que, sob a forma de CD - livro, explora toda a densidade da sua mensagem histórica, convidando a reflectir sobre a dificuldade de vivermos a unidade e a diversidade da condição humana. Trata-se da iniciativa de Monserrat Figueras e Jordi Savall, com uma colaboração múltipla e diferenciada de artistas, em homenagem a Jerusalém. Se, em Jesus Cristo, o messianismo de origem judaica assumiu o sentido preciso da realização da promessa que continha, ele sofreu contudo metamorfoses ao longo do tempo que o afastaram do seu primitivo sentido mas estão ligadas intimamente à história do Ocidente. No caso português, deparamo-nos com formas de pensamento profético-messiânico, cujas origens e alcance nos são apresentados por José Eduardo Franco. Na secção Perspectivas, ainda no âmbito do ano paulino, publicamos um estudo de Joaquim Carreira das Neves sobre o lugar que ocupam as mulheres nas cartas de S. Paulo. As questões levantadas pela ecologia merecem a atenção de Miguel Oliveira Panão. Após apresentar vários tipos de ética ecológica, propõe como a mais válida a visão que se apoia numa ecologia de comunhão.

 
  KEOPS multimedia - 2006